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O afeto é o cuidado da alma:
Por Redação Rádio Mosquito Show
Publicado em 30/09/2026 17:20
Geral

O afeto é o cuidado da alma":

Beth Goulart reflete sobre memória, história familiar e a urgência de cuidar do cérebro.

 

_Em conversa franca sobre longevidade e autocuidado, a atriz relembra os casos de Alzheimer e demência na família e convoca as mulheres a incluírem a saúde cognitiva na rotina diária muito antes dos primeiros sinais da idade_

 

Cuidar de si mesma costuma evocar rituais conhecidos: a ida à academia, a escolha criteriosa do sérum facial, o prato colorido e os exames preventivos do coração. No entanto, em meio à corrida contemporânea pelo bem-estar e pela longevidade, um órgão vital ainda costuma ficar de fora da rotina diária: o cérebro. Para Beth Goulart, o verdadeiro autocuidado — aquele que sustenta a nossa identidade, a independência das mulheres e as relações que construímos ao longo da vida — precisa colocar a mente no centro da conversa. E o quanto antes.

 

A atriz, diretora e escritora fala com a propriedade de quem sentiu na própria dinâmica familiar as dores e os desafios impostos pelas doenças neurodegenerativas. A avó enfrentou um quadro demencial; o avô e um tio foram diagnosticados com Alzheimer. A convivência com essas transformações despertou em Beth a consciência de que a prevenção não é um tema restrito à velhice, mas uma responsabilidade cultivada dia a dia.

 

> "Falar sobre os cuidados com o cérebro é também falar sobre uma escolha que precisamos fazer todos os dias: a escolha de cuidar de nós mesmos. A minha própria história me mostrou de perto o quanto a saúde do cérebro impacta a vida de uma pessoa e de toda a família", desabafa Beth.

 

Para a artista, a cultura do autocuidado precisa romper com a fragmentação entre corpo e mente. O esquecimento cotidiano, as falhas de atenção ou pequenas alterações de comportamento não deveriam ser o primeiro gatilho de preocupação.

 

> "Ainda precisamos criar o hábito de colocar o cérebro na nossa rotina de cuidados, assim como já fazemos com o corpo. Não adianta cuidar do corpo e deixar o cérebro de lado, porque é ele que nos permite preservar nossa autonomia, nossa independência, nossas memórias e, principalmente, a nossa capacidade de viver com qualidade. Por isso, acredito tanto na cultura da prevenção e em começar esse cuidado o quanto antes", enfatiza a atriz, que também é embaixadora do método de estimulação cognitiva Supera.

 

*O afeto como remédio e dignidade*

 

Ao participar da oitava edição do encontro "Despertando a Sociedade para a Saúde do Cérebro", realizado em São Paulo — fórum que reuniu pesquisadores, médicos, cuidadores e pacientes —, Beth tocou em uma dimensão frequentemente ignorada pelos protocolos estritamente clínicos: a força do acolhimento.

 

Em lares chefiados majoritariamente por mulheres, onde o papel do cuidado histórico recai com mais peso, acolher a vulnerabilidade de quem perde as lembranças exige generosidade e escuta sensível. Para a atriz, manter viva a história do outro e respeitar sua trajetória é essencial ao longo de todo o processo de tratamento.

 

> "É fundamental o amor. O afeto talvez seja o cuidado da alma que ajuda o corpo a compreender a vida", resume com delicadeza.

 

*Ciência, hábitos e a preservação da autonomia*

 

A preocupação de Beth encontra eco direto nas mais recentes evidências científicas globais. Diretrizes consolidadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e relatórios da Comissão da revista *The Lancet* apontam que até 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou postergados mediante o controle de fatores de risco modificáveis ao longo da vida.

 

Entre os gatilhos apontados pelos estudos estão o sedentarismo, a depressão, o isolamento social, o tabagismo, perdas auditivas e visuais não tratadas, além de condições clínicas como hipertensão e colesterol elevado. Embora existam predisposições genéticas e o inevitável processo biológico do envelhecimento, o estilo de vida funciona como uma barreira de proteção fundamental para adiar o declínio cognitivo.

 

Para o médico geriatra Leandro Minozzo, professor da Universidade Feevale e consultor do Supera, o olhar coletivo precisa migrar do diagnóstico reativo para uma postura de blindagem ativa. Com mulheres ocupando espaços profissionais e de liderança por mais décadas, manter a clareza mental e a agilidade nas tomadas de decisão virou uma pauta urgente de empoderamento e saúde:

 

> "Os avanços científicos nessas áreas são importantes e trazem perspectivas positivas, porém, do ponto de vista coletivo, também precisamos olhar para aquilo que pode ser feito antes do surgimento dos sinais", afirma Minozzo. "A prevenção precisa fazer parte dessa conversa. Cuidar do cérebro não deve ser uma preocupação que começa apenas diante de uma suspeita de demência, mas uma atitude construída ao longo da vida."

 

Segundo o especialista, a equação que preserva a mente não depende de fórmulas mágicas ou soluções isoladas, mas da consistência de hábitos cotidianos: alimentação balanceada, sono de qualidade, exercícios físicos regulares, desafios intelectuais estruturados e o cultivo constante de laços sociais e afetivos.

 

Ao transformar a experiência íntima de sua família em um manifesto público de conscientização, Beth Goulart deixa um recado que ressoa em todas as fases da vida feminina: preservar o cérebro é proteger a própria voz, o poder de escolha e as memórias que nos tornam quem somos.

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